Excesso de mordomia... Cuidado: armadilha!
por Claudia Siqueira
artigo publicado na coluna EDUCAÇÃO da Revista Circuito – junho/2010
O Brasil pouco perdeu de seu “ar colonial”. Os filhos dos “sinhozinhos” ainda reinam, não mais no Brasil colônia, mas no Brasil contemporâneo. É isso mesmo: com a opção real de ter uma empregada doméstica, situação de total “luxo” em muitos outros países, nossas crianças e adolescentes são criados e se tornam os tais “sem atitude”. São poucas as famílias que colocam seus filhos para realizar tarefas simples como pegar os brinquedos no quarto, colocar a roupa suja no cesto, arrumar a própria cama, ajudar a tirar a mesa do almoço ou jantar, guardar todas as roupas que experimentaram e espalharam pelo quarto antes de ir pra balada, tirar a toalha molhada de cima da cama, tirar o tênis do meio da sala, guardar a mochila ao chegar da escola, lavar a louça... enfim, pequenas tarefas que os ajudariam a compreender o sentido de palavras como: coletividade, solidariedade e respeito.
Propor a nossos filhos o cumprimento de pequenas tarefas domésticas não significa “desafeto”. Muito pelo contrário! Significa dar a eles mais condições de sobrevivência, de lidar melhor com a vida real.
Muitos pais mandam seus filhos para fazer intercâmbio em países de “primeiro mundo”. Lá, muitos sofrem ao ter que realizar atividades domésticas; outros, até acham divertido. Será que é necessário atravessar mares para aprender o sentido da expressão “ele tem que aprender a se virar”? Olha a semelhança com o Brasil colonial novamente...
Podemos dar o melhor para nossos filhos? Sim, podemos. Mas não temos o direito de torná-los pessoas com pouco ou nenhum senso de coletividade e de respeito pelo trabalho realizado pelo outro, seja este um empregado ou alguém de sua própria família. Nós, pais, somos os responsáveis por colocarmos na sociedade pessoas sem dimensão da importância do coletivo e totalmente passivas.
A escola, por sua vez, tampouco investe no desenvolvimento de ações colaborativas entre seus alunos, como a limpeza das salas e dos espaços coletivos — apenas para dar alguns exemplos. E, muitas vezes, quando propõe ações como essas, não é apoiada pela comunidade de pais, que consideram que escola é lugar para aprender a estudar, e não um espaço para exercitar o senso de coletividade em suas diferentes dimensões. Algumas escolas também pecam nesse quesito: deixam de ajudar seus alunos a tornar-se pessoas melhores quando alimentam ainda mais suas mordomias. E, assim, as crianças tornam-se adolescentes, mas poucos adolescentes conseguem tornar-se realmente adultos.
De fato, o que importa é que enquanto algumas famílias se gabam das mordomias que dão aos seus filhos, outras procuram sair do período colonial e mudam conscientemente para estabelecer uma relação mais adequada com seus filhos, por entender que a demonstração de afeto não está no tamanho da mordomia que podem dar a seus filhos, mas na possibilidade de ajudá-los a experimentar o “fazer”...