A experiência de festejar
POR ALEXANDRA CONTOCANI E CARLOS CAÇAPAVA*
Extraído do livro “BRINCAR, um baú de possibilidades”, 2009.
A experiência de festejar é algo presente entre os homens desde períodos muito remotos. Inicialmente ligadas à plantação e à colheita, as festas sempre tiveram o grande poder de unir as pessoas e reforçar a solidariedade humana. Festejar é um ato coletivo, comunitário, que por isso só pode acontecer de maneira compartilhada. Entretanto, no mundo atual, estamos cada vez mais expostos ao individualismo, e, assim, o coletivo vai pouco a pouco perdendo o sentido. Pensando sobre essas questões, no ano de 2008 o trabalho no Instituto Sidarta procurou ressignificar a festa junina, trazendo um novo sentido para essa comemoração, um evento comum nas instituições de ensino.
A experiência
A ideia era fazer com que a festa fizesse sentido para as crianças e adolescentes e fosse construída coletivamente pela comunidade escolar. O tema escolhido foi a chita, o que tornou possível realizar um passeio pelas manifestações populares do Brasil, reconhecendo as brincadeiras, músicas, artesanatos, histórias, mitos, lendas e vestimentas. Também foi possível, graças à temática, estabelecer um contato com momentos da história do país e da formação do povo brasileiro. Houve a criação de um espaço inspirado nos barracões das escolas de samba para a confecção de adereços e figurinos para o evento, utilizando a chita como objeto principal.
Renato Ambroisi, designer têxtil e estudioso da história da chita, foi o grande mentor intelectual dessa empreitada. Conversou com os alunos sobre sua pesquisa, orientando a equipe técnica no sentido de potencializar essa temática com outras áreas do conhecimento.
Nas aulas de música, os alunos foram convidados a realizar um passeio pelas festas, que começou pelas comemorações dos solstícios de inverno e de verão, e passou por diversas manifestações da cultura popular brasileira, como brincadeiras de roda, cacuriá, caboclinho, ciranda, lundu, coco e a tradicional quadrilha caipira.
Em primeiro lugar, refletimos sobre as festividades pagãs na Europa, que giravam em torno das grandes fogueiras relacionadas aos rituais de fertilidade praticados em várias culturas.
Depois exploramos as manifestações no Brasil, ligadas ao catolicismo, primeiro em homenagem a São João, comemorado em 24 de junho, depois se estendendo a Santo Antônio, no dia 13, São Pedro, no dia 29, e São Marçal, no dia 30. Os festejos agradeciam pela boa colheita, mantendo o fogo aceso para espantar os maus espíritos que pudessem atrapalhar as futuras plantações.
Concluímos que as festividades juninas celebram a vida, o sol e o elemento fogo transformador, que gera luz e calor, que transforma água em vapor, vapor em nuvem que traz a chuva, a qual rega a terra e fertiliza as sementes que alimentam a vida.
Todo esse percurso foi explorado com as crianças e adolescentes por meio de ritmos, canções, movimentos, figurinos, instrumentos musicais e histórias das manifestações que cada região ou comunidade leva para perto de sua fogueira junina. Essas comunidades foram representadas por nossos alunos e cada grupo se aprofundou nos conhecimentos adquiridos e compartilhou-os com os demais.
Vale destacar alguns momentos da experiência vivida com as crianças de 5 a 6 anos. Esse grupo explorou o cacuriá, uma dança de roda brincada nas ruas e praças de São Luís do Maranhão que tem origem na festa do Divino Espírito Santo.
Após as obrigações religiosas, acontece o carimbó das caixeiras (devotas do Divino Espírito Santo, tocadoras de caixa) no qual se brinca o cacuriá, em forma de cordão ou roda. Enquanto alguns participantes batem palmas, outros batem na caixa e inventam versos, formando um ritmo para começar a dança e movimentar o corpo. Em geral as letras das músicas indicam os movimentos da dança, o que torna a brincadeira mais atraente e divertida.
Para essas crianças, o cacuriá foi introduzido de maneira lúdica, por meio de uma narrativa que envolvia as canções.
Foi contada a história de um menino caçador de caranguejo que, após a caça, vende o animal na feira. No meio da narrativa as crianças foram convidadas a caçar caranguejo dançando e cantando:
Caranguejinho,
tá andando, tá andando
tá na boca do buraco,
caranguejo sinhá
Desde que o cacuriá foi apresentado para as crianças, elas se envolveram muito com essa manifestação, pareciam encará-la como uma brincadeira divertida, que fazia muito sentido. Tal foi o envolvimento que, quando questionadas sobre o que fazer na festa junina, trouxeram várias sugestões relacionadas ao cacuriá. Durante os preparativos para a festa, a questão da colheita ficou em evidência, muito se falou nas comidas típicas, inclusive foi organizado um piquenique junino, no qual não faltou milho cozido, pipoca, canjica, pé de moleque e outras iguarias.
No momento da escolha do repertório, as crianças também estabeleceram relações entre as músicas do cacuriá e a questão da colheita e da alimentação. Fizeram questão de incluir no repertório que seria apresentado na festa a música Macaco pisa o milho:
O macaco pisa o milho
Ploc, ploc, ploc
No pilão da sapucaia
Ploc, ploc, ploc
Ele pisa, ele cessa
Ploc, ploc, ploc
Na barra da sua saia
Outra coisa curiosa foi a escolha da música do avião. As crianças relacionaram-na ao fato de termos falado de diversas manifestações de vários lugares do Brasil e também ao fato de estarem fazendo os figurinos para a festa utilizando a chita, que nasceu na Índia e foi estampada na França, vindo depois para cá. Acharam que não poderia faltar um avião para trazer a chita até nossa festa.
Meu avião,
ele vem do Ceará
Ele vai pousar num
campo de aviação
Eu dei com a mão
para ele parar
Ele parou
Desligou o motor
E devagar pousou no chão
Durante a festa as crianças dançaram de maneira descontraída e ficaram bastante orgulhosas em convidar seus pais para participar da brincadeira. Saíram muito entusiasmadas da festa. Helena, aluna de 5 anos, escreveu em seu diário: “Eu nunca vou esquecer esta festa junina, dancei muito com as minhas amigas”.
Pela observação da festa, pudemos perceber que é possível fazer com que um processo educativo seja transformador e significativo. Todos, das crianças pequenas aos adolescentes, puderam captar a dimensão coletiva do festejar, construindo tudo juntos, desde a roupa até a dança, o que possibilitou a realização de uma experiência da ordem do compartilhar.
Os alunos do Ensino Fundamental I e II, adoradores de rock e de outros estilos musicais, voltaram o olhar para a Pangeia, atravessaram continentes cantando com caiapós, xavantes
e cariris; dançando samba, lundu e coco. Ouvimos blues, jazz e bossa nova. Com base nesses ritmos houve criações em torno da temática, como ilustra a música:
FESTA MULTICOR
Letra: Bruno e turma da 7ª série Sidarta/2008
Parodia da canção Garota de Ipanema
Olha que chita mais linda, mais cheia de graça
É este tecido que vem e que passa
Num suave balanço a caminho do arraiá
Chita indiana estampada em terra francesa
Flores multicores, veja que beleza
É a roupa mais linda que eu já vi passar
Oh, como a chita é bacana
Oh, um jardim nela existe
Oh, aqui ninguém é triste
A beleza do seu colorido
Nas camisas, calças e vestidos.
Ai, a festa junina aqui no Sidarta
Plantamos cultura, a colheita é farta
E tudo é tão lindo por causa da cor, por causa do amor
Assim, pudemos perceber que o barracão se tornou a alma do evento. Foi uma solução simples para envolver toda a comunidade escolar na preparação da festa. Um espaço colorido, que tornou-se um ponto de referência e de experiência do aprendizado teórico sobre a chita, com disponibilidade de materiais variados. Todas as turmas visitaram o espaço com seus professores e o frequentaram em horários livres de forma regular. A ideia central não foi produzir algo individual, mas alguma coisa que pudesse ser usada no coletivo da festa, um exercício de fazer para outro. A preparação se transformou em um evento tão significativo quanto a festa em si. Afinal, o melhor da festa é prepará-la.
Atrelar a temática da chita e assim, da história do país, a outras áreas do conhecimento, mostrou que esse conhecimento não é estático, engessado. A reprodução de um fazer antigo – a customização de tecidos e sua efetiva aplicação no cotidiano – trouxe para a mão dos meninos, e também de seus pais e mães que participaram das atividades propostas no espaço, uma proximidade que proporcionou um trabalho conjunto entre pais, filhos e educadores, mostrando a todos os envolvidos quanta qualidade pode ter uma atividade desse tipo, que atrele informação, conhecimento, fazer e reflexão.
Houve uma proposta de situação de escolha – tanto na produção do interior do barracão, quanto na seleção das manifestações a serem vivenciadas, gerando de fato autonomia e envolvimento. E quando finalmente chegamos à hora da quadrilha, tivemos a oportunidade de compartilhar uma ciranda cultural que reuniu uma comunidade agora um pouco mais experiente com o ato de festejar.
* Alexandra é Arte- Educadora e Pedagoga; Carlos é músico percussionista e Arte-Educador.